
A gente abre todas as portas. A porta da casa, a porta da família, a porta da alma. A gente se doa, faz o máximo, se esforça. A gente confronta nossos monstros, nossos medos, nossa angústia.
A gente encontra espaço para roupas no nosso guarda-roupa lotado, espaço para os livros na nossa estante abarrotada e para mais uma escova de dentes no nosso armário.
A gente larga as pedras das mãos, a gente abre o sorriso com olhos e desarma o corpo. Esquece do passado triste e colore o futuro com tintas neon.
E vocês viram as costas. Com a facilidade de um marinheiro que busca novas aventuras e novos portos. Vocês fecham as portas, arrancam as roupas do armário, derrubam os livros da estante, jogam fora a ecova de dentes usada. Vocês juntam as pedras da rua e a tinta neon escorre feito água.
Não importa o passado, não importam as lembranças. Vocês deixam tudo pra trás com uma facilidade que dói, que machuca, muito mais que a dor de se sentir sozinho é a dor de sentir que não possuia valor.
Mas a gente reconstrói. A gente cola cada pedacinho quebrado, faz curativo em cada machucado que insiste em doer. A gente encontra nosso valor no colo dos amigos, na casa dos pais, no olhar dos filhos. A gente sabe que o nosso valor quem dá somos nós mesmos. Mas, mesmo assim, não deixa de dor. Cada vez que vocês se vão.




